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Aghora: quem são os aghoris

  • Foto do escritor: Naradeva Shala
    Naradeva Shala
  • há 3 dias
  • 7 min de leitura

Quem foi Vimalananda e por que essa trilogia continua tão perturbadora quanto necessária


Escrito por Rogério Bettoni


A tradição espiritual indiana aghora, comumente definida como tantra radical ou via sagrada de mão esquerda, tem como fundamento o com nossos limites e com aquilo que nossa cultura costuma definir como impuro, ameaçador ou inaceitável. Aqui, a transgressão não aparece apenas como ruptura simbólica, mas como meio de conhecimento, transformação e deslocamento do eu.


Ao redor dos aghoris se acumularam lendas, estereótipos e sensacionalismo, como se praticantes fossem ascetas de cemitério, figuras extremas e radicais ou ligadas a rituais proibidos. Mas os textos que compõem a trilogia Aghora, de Robert Svoboda a partir dos ensinamentos de Vimalananda, mostram algo mais complexo: uma investigação profunda sobre medo, morte, transformação, desejo, ego e liberdade.


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QUEM SÃO OS AGHORIS?

A trilogia Aghora apresenta seus praticantes como pessoas engajadas num caminho espiritual extremo. Aghora é descrita como uma via em que o praticante busca atravessar aquilo que é mais aterrador, repulsivo ou limítrofe para dissolver as amarras da personalidade comum. O aghori não foge da morte, do impuro, do grotesco ou do medo: ele enfrenta tudo isso para transformá-lo em conhecimento, devoção e percepção da realidade.


Em vez de definir os aghoris apenas por sinais externos — cinzas, cemitérios, rituais — os livros insistem que o verdadeiro Aghora é interior. Vimalananda rejeita a ideia de que se reconhece um aghori pela aparência. O que importa é uma disposição espiritual: a recusa das convenções quando elas impedem o acesso à verdade, a coragem de atravessar a sombra e a capacidade de converter o que é terrível em lucidez.


Nesse sentido, longe dos estereótipos que costumam retratar os aghoris como “adoradores do horror”, o que vemos são pessoas que se recusam a viver anestesiadas. Se o mundo inteiro é passageiro, se o corpo é finito, se o ego é frágil e se a morte é inevitável, então a questão não é esconder isso sob formas respeitáveis de espiritualidade, mas encarar o fato até o fim. A tradição envia o aghori ao crematório; o bom aghori, porém, aprende a ver o mundo inteiro como um grande crematório, onde tudo está em transformação o tempo todo.


O QUE É AGHORA?

Os textos definem Aghora de formas complementares. Em sentido literal, a palavra pode ser entendida como “não terrível” ou “não assustador”, ou seja, o estado em que o terror foi atravessado e transmutado. Em outro, Aghora aparece como um caminho espiritual “mais fundo que o profundo”, uma forma radical de tantra, às vezes chamada no próprio material de “supertantra”.


A formulação mais forte talvez seja esta: Aghora é um tantra sem concessões às limitações humanas. Há uma tendência na nossa tradição ocidental de encará-los como praticantes de "magia obscura" caricaturada, definição que em nada representa a tradição. O alvo último continua sendo o mesmo que em outras correntes tântricas: superar a identificação estreita com o eu limitado e retornar a uma realidade mais vasta. O diferencial está no método. Em vez de evitar a sombra, Aghora a atravessa. Em vez de preservar a imagem moral do praticante, desmonta essa imagem. Em vez de se apoiar em segurança, respeitabilidade e pureza externa, exige intensidade, risco interior e verdade.


Por isso Aghora também é descrita como “o caminho da sombra”, no sentido de reconhecer e trabalhar precisamente com tudo aquilo que sustenta a individualidade às custas da separação, do medo, do apego e do egoísmo. O aghori desce à escuridão da própria mente para sair dela transformado. Essa transformação não é suave. Os textos repetem que esse caminho não tem nada de uma espiritualidade adocicada; exige que o praticante seja “duro como diamante e macio como cera”, conforme a necessidade.


Ao mesmo tempo, há uma correção importante: Aghora não é uma doutrina fixa. Em Vimalananda, ela aparece menos como sistema fechado e mais como uma prática viva, moldada pela experiência. Ele rejeita a prisão do dogma e insiste que cada pessoa precisa “esculpir o próprio nicho”, encontrar a forma concreta de disciplina e verdade que de fato possa viver.



QUEM É VIMALANANDA?

Vimalananda é a figura central da trilogia. Segundo os próprios livros, trata-se de um nome parcialmente pseudônimo, preservado para evitar distrações biográficas e proteger a dimensão interior da narrativa. O autor, Robert Svoboda, afirma que Vimalananda foi uma pessoa real e que sua história é apresentada em camadas diferentes ao longo dos três volumes.


Ele surge como um mestre profundamente heterodoxo: um aghori, tantrika, narrador brilhante, conhecedor de astrologia, medicina, ritual, música e filosofia, mas também alguém que recusava a pose convencional de guru. Em vez de parecer “espiritual” segundo os clichês, Vimalananda aparecia muitas vezes como um homem comum — até mundano — e justamente aí residia parte de sua força. Ele não queria ser idolatrado, nem transformado em figura pública santificada. Seu ensino era individual, oblíquo, muitas vezes duro, sempre desconcertante.


Smashan Tara
Smashan Tara

Nos livros, Vimalananda é também apresentado como alguém cuja Kundalini despertou sob a forma da deusa Smashan Tara, a Tara do crematório, “a Salvadora do Cemitério”. Isso importa porque define o centro vivo de sua experiência como uma relação concreta, intensa e pessoal com a divindade. Em vez de tratar Kundalini como conceito psicológico ou mecanismo esotérico, Vimalananda a vive como presença divina, poder transformador e caminho de passagem entre o mundo encarnado e outras dimensões da realidade.


Há ainda algo decisivo em seu retrato: Vimalananda não é vendido como exemplo para imitação literal. Ao contrário. Os textos alertam repetidas vezes contra o erro de copiar externamente práticas extremas sem a estrutura interior necessária. Ele não montou um “método para massas”; ensinava conforme a capacidade de cada um, e muitas vezes de modo indireto. Isso torna sua figura mais interessante e mais difícil: menos líder espiritual de consumo, mais presença incômoda, imprevisível e exigente.


DO QUE TRATA A TRILOGIA?

A trilogia Aghora não é apenas uma exposição doutrinária. Ela organiza, em três movimentos, a figura de Vimalananda e sua visão espiritual.


Segundo o próprio material, o primeiro volume apresenta Vimalananda de maneira mais subjetiva, em sua própria voz, narrando sua trajetória e seu universo interior. É ali que se acompanha sua jornada, suas experiências e sua entrada no campo espiritual em que vive. O livro recobre especialmente sua história, sua formação e a atmosfera de sua presença.


O segundo volume, centrado em Kundalini e em aspectos mais detalhados do tantra e de Aghora, aprofunda o ensinamento. É nele que a trilogia desenvolve com mais clareza temas como a natureza de Aghora, o despertar da Kundalini, o papel da deusa, a disciplina espiritual, o valor — e o perigo — das práticas extremas, além da crítica ao esoterismo superficial e à transformação da espiritualidade em mercadoria.


O terceiro volume mostra Vimalananda como artista da vida, em ação no mundo. O próprio material indica que ali ele aparece “constantemente em trabalho no ateliê do mundo ao seu redor”. Em outras palavras, a trilogia não termina num tratado abstrato: ela insiste em mostrar como visão espiritual, karma, ritual, narrativa, acaso, humor, convivência e ação concreta se entrelaçam numa existência singular.


VISTA EM CONJUNTO, A TRILOGIA TRATA DE QUANTRO GRANDES COISAS AO MESMO TEMPO

Primeiro, trata de Vimalananda, esse personagem ao mesmo tempo histórico, enigmático e pedagógico.


Segundo, trata de Aghora como via espiritual radical: uma tradição em que morte, medo, impureza, desejo e limite deixam de ser apenas obstáculos e se tornam matéria de transformação.


Terceiro, trata de Kundalini não como moda esotérica, mas como força real de individuação e transcendência, cujo manejo exige preparação, discernimento e relação viva com o sagrado.


E, por fim, trata de uma pergunta maior: como viver com realidade, em vez de viver protegido dela? Essa talvez seja a questão mais atual da trilogia. Em um mundo saturado de caricaturas espirituais, consumo simbólico e autoengano, os livros insistem em algo desconfortável: verdade não é ornamento, não é pose, não é identidade pronta. Verdade custa. Exige perda, disciplina, revisão de si e confronto com tudo aquilo que preferiríamos manter à distância.


POR QUE LER AGHORA HOJE?

Porque Aghora não oferece consolo barato. E isso, hoje, é raro.


Os textos deixam claro que Vimalananda desconfiava tanto do dogma religioso quanto da falsa espiritualidade vendida como produto. Ele via a busca espiritual como algo que não pode ser comprado, imitado superficialmente nem reduzido a linguagem de autoajuda. Essa crítica atravessa toda a trilogia e talvez seja uma das razões de sua permanência.


Ler Aghora não é entrar num universo “exótico” para entretenimento. É topar uma visão espiritual que considera a morte real, o ego precário, o desejo perigoso, o medo inevitável e a transformação possível — mas nunca fácil. É também entrar em contato com uma voz que se recusa a separar radicalmente filosofia, corpo, rito, narrativa e experiência.


No fim, a trilogia não pede adesão cega., mas coragem de leitura. Pede abertura para um pensamento espiritual que incomoda porque leva a sério aquilo que nossa cultura costuma neutralizar: limite, sacrifício, devoção, disciplina, finitude e verdade.


E talvez seja exatamente por isso que ela continue viva.

Rogério Bettoni (SatBhagat), editor-geral, organizador e tradutor.


Rogério criou a Palimpsestus com a vontade de fazer a diferença. Filósofo de formação e especializado em tradução, trabalha no ramo há mais de vinte anos. Traduz filosofia, crítica e literatura moderna e contemporânea —de Judith Butler a Slavoj Žižek, de Agatha Christie a Ernest Hemingway. Pela Palimpsestus, traduziu e publicou Austin Osman Spare, Phil Hine, Pamela Colman Smith e Alan Chapman. Recebeu o Prêmio da Biblioteca Nacional em 2017 na categoria de melhor tradução com o livro Jaqueta Branca, de Herman Melville. Também faz parte do Projeto Xaoz e dá aulas de kundalini yoga.

Instagram: @oficinapalimpsestus

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