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ALIMENTAÇÃO PARA UM CORPO EM TRAVESSIA: Āhāra, Agni e os novos ritmos da peri&menopausa

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    Sabrina Alves
  • há 17 horas
  • 9 min de leitura

Newsletter NOTAS PECULIARES SOBRE AYURVEDA

Por Sabrina Alves


Há uma frase que escuto com frequência nos atendimentos:

“Eu sempre comi assim. Por que agora meu corpo não aceita mais?”

Às vezes, ela vem acompanhada de inchaço. Outras vezes, de gases, constipação, digestão lenta, fome em horários estranhos, vontade repentina de determinados alimentos, cansaço depois de comer ou daquela impressão bastante desconfortável de que qualquer coisa parece “pesar”.


E acho essa pergunta muito mais interessante do que parece. Porque talvez o problema não esteja exatamente no alimento (REPITAM COMIGO: Não existem alimentos inflamatórios!!). O que muito provavelmente aconteceu, foi que talvez tenha mudado quem o recebe. Ou, talvez tenha mudado o agni de quem recebe o alimento. E isso muda praticamente tudo.


A perimenopausa e a menopausa são uma travessia fisiológica, mas também temporal. O corpo que atravessa esse período não funciona necessariamente segundo os mesmos ritmos de dez ou quinze anos atrás. Sono, termorregulação, composição corporal, percepção de fome, resposta ao estresse, disposição física e experiências digestivas podem se reorganizar. E essa transição não acontece de maneira igual para todas as pessoas.


Por isso, antes de perguntar “o que devo comer na perimenopausa?”, talvez seja mais inteligente formular outra pergunta: “Como este corpo, neste momento, está conseguindo receber, transformar e utilizar aquilo que eu como?”

É aqui que começa o conceito do Ayurveda chamado de Āhāra.




especiarias

Āhāra não é uma dieta com nome sânscrito

Já escrevi algumas vezes sobre isso porque considero importante insistir. Se quiser, e puder, vale ler outros textos que escrevi no blog do PerimenopausaAyurveda.com.br [https://www.perimenopausaayurveda.com.br/blog


Mas, bom, afinal o que é o conceito de Āhāra?  Não é simplesmente aquilo que hoje chamamos de “nutrição ayurvédica”. Aliás, considero essa tradução bastante problemática quando faz parecer que Ayurveda seria apenas uma versão antiga da ciência nutricional contemporânea. Não é. Tem método e todo um arcabouço teórico próprio.


A ciência da nutrição possui categorias próprias: proteínas, lipídios, carboidratos, vitaminas, minerais, densidade energética, biodisponibilidade e assim por diante.

O Ayurveda construiu outro mapa. Nem melhor nem pior. Só diferente. 


O Ayurveda observa rasa — os sabores; guṇa — as qualidades; vīrya — a potência; vipāka — os efeitos posteriores à digestão; agni — a capacidade transformadora; além de tempo (dia, noite, estações do ano, idade de quem come, tempo entre uma alimentação e outra), lugar, preparo, combinação, quantidade e características de quem come, e um detalhe que faz diferenciar Ahara, TUDO no conceito do Ayurveda é passível de interferir nos tecidos e tudo segue a lógica da digestão, sim, estou falando de pensamentos, interações, sentimentos…Portanto, colocar os dois sistemas numa relação de equivalência empobrece ambos.


Podemos colocá-los em diálogo. Mas não precisamos fingir que estão dizendo a mesma coisa.

No Caraka Saṃhitā, encontramos uma formulação particularmente sofisticada chamada Aṣṭa Āhāra Vidhi Viśeṣāyatana: oito fatores que interferem no efeito do alimento. Eles incluem a natureza do alimento (prakṛti), a forma de preparo (karaṇa), as combinações (saṃyoga), a quantidade (rāśi), o lugar (deśa), o tempo (kāla), a maneira de comer (upayoga-saṃsthā) e, finalmente, quem está comendo (upayoktṛ).


Repare na inteligência disso.

O Ayurveda não pergunta apenas: “Isso é saudável?”

Pergunta: Saudável para quem? Em que quantidade? Preparado como? Em qual estação? Em que circunstância? Com qual capacidade digestiva?

Essa diferença é abissal.

E talvez explique por que listas universais de “dez melhores alimentos para a menopausa” sejam tão sedutoras quanto insuficientes.


O alimento pode continuar o mesmo. O corpo que o recebe, não.

A perimenopausa é um excelente exemplo do princípio de kāla, o tempo.

No pensamento ayurvédico, a maturidade corresponde progressivamente ao aumento das funções de Vāta — movimento, irregularidade, secura, leveza e variabilidade. Mas é preciso fazer uma correção importante aqui.


Perimenopausa não significa simplesmente “Vāta alto”.

Pitta continua existindo. Kapha continua existindo. Agni pode manifestar padrões distintos. A mesma pessoa pode atravessar meses de maior secura e constipação e depois períodos de calor, irritabilidade, fome intensa, retenção, peso, congestão ou ausência de apetite.


A instabilidade é justamente uma das características dessa travessia. Foi por isso que, no livro Peri&Menopausa e Ayurveda, propus pensar essa fase como sandhyākāla, um tempo de fronteira, mais do que como uma condição fixa, um tempo limiar.


Isso também significa que aquela regra simplificada que circula pelas redes — “na menopausa aumenta Vāta, portanto coma quente, pesado e oleoso” — precisa ser tratada com cuidado. Às vezes, sim. Em outras circunstâncias, não.


Uma pessoa com intensa manifestação de calor, refluxo, sensação de queimação e determinados padrões de Pitta não precisa transformar toda refeição numa pequena fornalha em nome de “pacificar Vāta”. Da mesma maneira, alguém apresentando peso, lentidão e acúmulo não necessariamente se beneficiará de simplesmente aumentar alimentos densos e gordurosos.

A essa altura já não precisamos caricaturar o Ayurveda, certo!? 



fogo

Agni não é simplesmente “metabolismo”

Outra simplificação que precisamos abandonar é traduzir Agni como metabolismo e considerar o assunto resolvido.


Agni é uma categoria própria da fisiologia ayurvédica.


Metabolismo é uma categoria construída pela fisiologia e bioquímica modernas.

Existem áreas de aproximação? Claro. São sinônimos? Não.


Agni descreve a capacidade de transformação. E, na prática clínica do Ayurveda, interessa observar sua regularidade: como surge a fome, como o alimento é recebido, quanto tempo permanece a sensação de saciedade, como ocorre a eliminação, se há distensão, gases, sensação de peso, desconforto, irregularidade.


É menos uma fotografia do alimento e mais uma observação da relação entre alimento e organismo e o tempo.


As vezes o melhor alimento do mundo pode se tornar uma escolha inadequada quando encontra um corpo sem condições de processá-lo naquele momento. Ou, quando Agni começa a dar sinais de instabilidade para o corpo que inicia a sua travessia. 


Uma salada orgânica, biodinâmica, colhida sob a lua cheia e benzida pelos melhores espíritos da floresta continua podendo ser difícil de digerir a depender do corpo que o recebe. O estômago, felizmente, não entende de marketing multinível.


A digestão começa antes da primeira garfada

É aqui que o tema da alimentação encontra outro eixo fundamental da perimenopausa: o sistema nervoso.


Comer não é apenas colocar substâncias na boca. É sentar. Perceber fome. Sentir cheiro. Salivar. Mastigar. Respirar. Digerir. Absorver. Eliminar.


Tudo isso acontece em um organismo que pode estar, simultaneamente, atravessando noites de sono fragmentadas, ansiedade, sobrecarga de trabalho, alterações hormonais, responsabilidades familiares, mudanças de humor, transições de carreira e cansaço.


Por isso, quando alguém me pergunta qual especiaria deveria usar para melhorar a digestão, às vezes devolvo a pergunta:

Como você está comendo?

Em pé?

Respondendo mensagens?

Durante uma reunião?

Assistindo notícias?

Discutindo problemas familiares?

Comendo em dez minutos porque precisa voltar ao trabalho?


Não estou sugerindo uma fantasia de refeição perfeita, silenciosa, com cerâmica artesanal e música de flauta ao fundo. A vida real raramente coopera com o Instagram. Estou dizendo algo mais simples: o contexto também entra pela boca e por todos os outros sentidos.


A pesquisa contemporânea sobre comunicação intestino–cérebro e microbiota durante a transição menopausal está crescendo e sugere relações complexas entre hormônios, sistema nervoso, metabolismo e ambiente intestinal. Mas esse campo ainda está em desenvolvimento e não “comprova Vāta”, Agni ou qualquer outra categoria ayurvédica. São sistemas explicativos diferentes, e mantê-los distintos é intelectualmente mais honesto.


Então, o que muda na cozinha?

chá

Não acredito que a resposta seja criar uma nova ditadura alimentar exatamente no momento em que o corpo já está sendo bombardeado por ordens.

“Retire glúten.”

“Retire leite.”

“Bata a meta de proteína.”

“Não coma carboidrato.”

“Faça jejum intermitente.”

“Não faça jejum.”

“Tome isso.”

“Pare aquilo.”

Se obedecermos a todos os gurus simultaneamente, provavelmente terminaremos com um prato vazio e bastante ansiedade.


Prefiro pensar em cinco movimentos de observação:

  1. Da regra para a resposta do corpo. Um alimento não deve ser escolhido apenas porque alguém o classificou como bom para “seu doṣa”. Observe fome, digestão, energia, conforto e eliminação.

  2. Da irregularidade para algum ritmo possível. Para um corpo já atravessado por instabilidade, refeições completamente imprevisíveis podem adicionar mais uma variável ao sistema. Regularidade não significa rigidez militar, mas oferecer alguma previsibilidade.

  3. Do ingrediente para a preparação. Cru, cozido, assado, fermentado, seco, cremoso, frio ou quente não são detalhes. No Ayurveda, karaṇa, a transformação pelo preparo, modifica profundamente a forma como pensamos o alimento.

  4. Da dieta universal para tempo e lugar. O que faz sentido no verão pode não fazer no inverno. O que faz sentido numa semana pode deixar de fazer na seguinte. Āhāra também é deśa e kāla: território e tempo.

  5. Do produto para a comida. Antes de transformar a perimenopausa num mercado de suplementos, pós e alimentos funcionais importados, vale recuperar a cozinha, os alimentos locais, as preparações culinárias e a cultura alimentar.


Esse último ponto, aliás, produz uma convergência muito interessante com o Guia Alimentar para a População Brasileira, que recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias constituam a base da alimentação, reservando aos ultraprocessados um lugar mínimo ou nenhum. O Guia também trata comer como prática cultural e social, e não apenas como ingestão de nutrientes.


Por isso, não vejo nenhuma necessidade de transformar Ayurveda no Brasil numa peregrinação permanente ao supermercado de produtos importados.

Às vezes, um prato preparado com arroz, feijão, abóbora, folhas da estação, uma boa gordura e temperos adequados ao momento pode estar muito mais próximo da inteligência de deśa, kāla e Agni do que uma despensa inteira de “superfoods”.


E há outra armadilha: transformar toda alimentação da perimenopausa em dieta para emagrecer

Precisamos falar disso. Apenas, parem!


Mudanças corporais podem acontecer durante a transição menopausal, inclusive alterações na distribuição de gordura e em fatores cardiometabólicos. Dados contemporâneos reforçam que esse período merece atenção à pressão arterial, glicemia, lipídios, atividade física, sono e saúde cardiovascular. Um estudo publicado em 2026 encontrou, de forma observacional, pior perfil global de saúde cardiovascular entre mulheres na perimenopausa quando comparadas às que ainda mantinham ciclos regulares, particularmente em indicadores de colesterol e glicemia.


Mas isso não autoriza transformar toda pessoa em perimenopausa num projeto de emagrecimento. No pensamento Ayurvédico isso seria em verdade algo bem desastroso para o corpo que vai envelhecer, colocando em risco o cérebro. 


Prevenção cardiometabólica não é sinônimo de perseguição estética ao peso. São coisas bem diferentes. Aliás, uma das violências mais silenciosas dessa fase é fazer a pessoa acreditar que cada modificação corporal representa fracasso moral.

Não representa. Monitorar saúde é necessário. Humilhar o corpo para fazê-lo caber numa versão anterior de si mesma não é.


Alimentação importa. Mas comida não é magia.

Também precisamos colocar um limite nas promessas.

Alimentação adequada participa da manutenção da saúde, do cuidado cardiovascular, metabólico, digestivo e vai proteger o cerebro. Pode também ajudar pessoas específicas a reconhecer gatilhos individuais e organizar melhor sua relação com sintomas.

Mas não existe base para afirmar que uma determinada “dieta da menopausa” irá resolver universalmente fogachos, insônia, ansiedade ou todas as manifestações dessa fase. É preciso compreender que a fase se caracteriza pela instabilidade. Gerenciá-las e atenuá-las é o que se pode fazer. 


A própria The Menopause Society informa que modificações dietéticas isoladas possuem evidências limitadas para o tratamento dos sintomas vasomotores, embora uma alimentação saudável, atividade física e manejo do estresse sejam importantes para a saúde global e prevenção de doenças crônicas. Quando sintomas são importantes, existem tratamentos hormonais e não hormonais com evidências específicas que devem ser discutidos com profissionais qualificados.

Acho fundamental dizer isso porque considero perigoso substituir medicalização excessiva por alimentarização excessiva.

Antes era: “tome esta pílula e resolva tudo”.

Agora pode se tornar: “coma perfeitamente e resolva tudo”.

As duas propostas podem retirar da pessoa a compreensão da complexidade do próprio corpo. Não quero nenhuma delas.



Corpo que muda

Reaprender a habitar o corpo através da alimentação

Talvez a pergunta mais interessante não seja: “Qual é a dieta ideal para a perimenopausa?”

Talvez seja: “Que relação com a comida este novo corpo consegue sustentar?”

Porque estamos falando de mais do que nutrientes.

  • Estamos falando de ritmo.

  • Fome.

  • Prazer.

  • Digestão.

  • Sono.

  • Cultura.

  • Memória.

  • Território.

  • Estação.

  • Condições econômicas.

  • Raça e genero.

  • Tempo disponível para cozinhar.

  • Com quem se compartilha uma mesa.


E até mesmo do direito de não transformar cada refeição numa prova de desempenho moral.

Āhāra, para mim, começa aí. Não como dieta. Mas como pedagogia de escuta do corpo no Tempo.


Para o corpo que está mudando de linguagem, a cozinha também precisa aprender a escutá-lo novamente. Talvez cozinhar para um corpo em travessia seja justamente isso: deixar de alimentar uma versão passada de nós mesmas e começar, lentamente, a descobrir quem está chegando à mesa agora. E ai, transformar a cozinha e o ato de se alimentar em investigação e ferramenta para saber quem nos tornaremos depois da grande fase de transição. 


ALIMENTAÇÃO PARA UM CORPO EM TRAVESSIA

Ayurveda, digestão e os novos ritmos da perimenopausa

Foi justamente dessa reflexão que nasceu o novo encontro que estou preparando no Naradeva Shala.

Uma imersão online e ao vivo de quatro horas sobre alimentação cotidiana, digestão, sistema nervoso e sazonalidade na perimenopausa segundo o Ayurveda.

Não será uma aula sobre “a dieta da menopausa”.

Nem uma lista de alimentos permitidos e proibidos.

A proposta é outra: compreender como Agni muda, como reconhecer diferentes respostas do corpo, como adaptar preparo, horários, sabores e qualidades, e como reconstruir uma relação com a alimentação que consiga acompanhar o novo corpo que está surgindo.

Mais do que aprender o que colocar no prato, quero investigar como reaprender a habitar o corpo através da alimentação.

Nos encontramos por lá.

Sejamos arca!

Sabrina Alves

Fontes e referências para aprofundamento

ALVES, Sabrina. Peri&Menopausa e Ayurveda: ensaios e práticas para uma jornada de autonomia, corpos plurais e saberes ancestrais. São Paulo: Editora Naradeva Prakashana, 2025.

CARAKA SAṂHITĀ. Vimānasthāna, capítulo 1 — discussão dos oito determinantes de Āhāra (Aṣṭa Āhāra Vidhi Viśeṣāyatana).

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa.

THE MENOPAUSE SOCIETY. Informações clínicas atuais sobre sintomas vasomotores, estilo de vida e tratamentos da menopausa.

EL KHOUDARY, S. R. et al. Menopause Transition and Cardiovascular Disease Risk: Implications for Timing of Early Prevention. Circulation, 2020.

American Heart Association. Dados de 2026 sobre saúde cardiovascular durante a perimenopausa e oportunidade de prevenção precoce.

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