Entre o Inverno e a Primavera: a arte ayurvédica de atravessar as estações
- Erick Schulz

- 8 de ago.
- 10 min de leitura
Atualizado: 13 de ago.
Por que, para o Ayurveda, não basta viver as estações, é preciso também saber passar de uma para outra
Por Erick Schulz e Sabrina Alves
Percebo, nesses anos de estudo, que o Ayurveda não estuda apenas o corpo. Ele estuda o corpo no tempo. Isso muda profundamente a maneira como compreendemos saúde.
Não somos uma estrutura biológica isolada, funcionando da mesma maneira em janeiro, junho ou setembro. A temperatura muda, a incidência da luz muda, os ventos mudam, a umidade muda, os alimentos disponíveis mudam, e, claro, nós mudamos junto. A pele dará sinais. A fome será alterada. O intestino, igualmente, afetado. O sono passa por seus momentos. A disposição mental reage para melhor ou para pior. Mas porque poucos dão importância a essas alterações que seguem acontecendo e dando sinais, quer estejamos percebendo ou não?
Por isso, uma das ideias que considero mais sofisticadas dentro do Ayurveda é o conceito de rtucarya, ou seja, a conduta de acordo com as estações. Mais do que adaptar roupas ou escolher alimentos “de inverno” ou “de primavera”, rtucarya significa reconhecer que a fisiologia participa dos movimentos da natureza.
Mas existe algo ainda mais delicado do que cada estação em si. A passagem entre elas. É justamente aí que quero chegar.
O corpo não muda de estação porque o calendário mudou

Nós inventamos calendários com datas muito bem definidas. Mas a natureza, felizmente, não os consulta. A primavera não começa de repente em uma terça-feira às 23h47. O inverno também não desaparece porque determinada data chegou.
As estações se misturam.
Há manhãs de inverno dentro da primavera. Há tardes quentes quando o frio ainda deveria estar conosco. Há semanas secas seguidas por chuvas. No Brasil isso se torna ainda mais evidente, porque o mesmo período do ano pode significar frio úmido no Sul, secura e vento no Centro-Oeste, instabilidade no Sudeste e uma mudança muito mais discreta em partes do Norte e Nordeste.
Por isso sempre defendo que aplicar Ayurveda no Brasil exige menos obediência ao calendário e mais capacidade de observação. Bom, mas é assim que os conhecimentos tradicionais do Ayurveda são transmitidos, pela observação constante.
Quem confirma a estação é também o corpo. É preciso observar se há frio, vento ou umidade; se a pele está seca; se surgiu congestão; se a digestão está rápida ou lenta; se sentimos mais fome ou menos fome; se existe peso, rigidez, sonolência ou inquietação.
O Ayurveda vivo nasce justamente deste encontro entre tempo, lugar e indivíduo.
Rtu-sandhi: quando duas estações se encontram
A tradição ayurvédica dedica atenção especial ao rtu-sandhi, o período de junção entre duas estações. Gosto muito dessa palavra. Rtu significa estação. Sandhi é junção, articulação, encontro. É uma espécie de dobradiça do tempo.
Durante esse período, o regime da estação que termina não deveria ser simplesmente abandonado, nem o da estação seguinte adotado de maneira brusca. A orientação é realizar a mudança progressivamente.
O corpo precisa de tempo para aprender a nova estação.
Nos materiais que eu a profa Sabrina Alves, desenvolvemos para o inverno, na edição da Coleção Estações com Ayurveda, sintetizamos essa ideia com um princípio simples: na entrada do inverno aumentamos gradualmente calor, nutrição e estabilidade; na saída do inverno começamos a reduzir, também gradualmente, a densidade acumulada e introduzimos mais leveza e movimento.
Essa talvez seja uma das ideias preventivas mais importantes do Ayurveda.
Mas a cultura moldada no capitalismo gosta de mudanças espetaculares. Começamos dietas na segunda-feira. Fazemos “detox” durante três dias. Mudamos radicalmente o exercício. Cortamos grupos inteiros de alimentos. Dormimos pouco durante meses e imaginamos que um final de semana resolverá tudo.
O organismo é menos performático. Ele prefere adaptação.
Costumo pensar que saúde se parece mais com jardinagem do que com guerra. Não arrancamos uma planta da terra porque a estação mudou; mudamos gradualmente irrigação, exposição, poda e manejo. O mesmo vale para nós. Porque somos igualmente parte da natureza.
Por que a saída do inverno merece tanta atenção?
Aqui encontramos uma particularidade fascinante. O inverno, sobretudo em sua fase mais fria, favorece no raciocínio ayurvédico a concentração do calor no interior do organismo. Agni, o princípio da digestão e da transformação, tende a manifestar maior força. A fome pode aumentar e o corpo torna-se mais capaz de receber alimentos nutritivos, cozidos e substanciais. Por isso, falamos tanto no ebook Inverno com Ayurveda sobre como essa época pode ser importante para a reconstrução, fortalecimento dos tecidos e preservação da vitalidade. Alias, diria, que é fundamental.
Mas existe um outro movimento acontecendo silenciosamente.
Durante o inverno, especialmente quando associamos o frio a excesso de alimentos pesados, doces, laticínios, pouca atividade física e sono em excesso, kapha começa a se acumular.
E aqui está o ponto decisivo: aquilo que o inverno acumula, a primavera tende a mobilizar.
O problema que aparece em setembro muitas vezes começou a ser construído em julho. Essa noção é fundamental porque muda nossa maneira de pensar na prevenção. O Ayurveda não pergunta apenas: “Como trato aquilo que apareceu agora?” Ele também pergunta: “Em que momento esse processo começou?”
A primavera não chega de mala vazia

Existe uma imagem romantizada da primavera como uma estação automaticamente leve, ensolarada e vital. Do ponto de vista ayurvédico, isso é apenas metade da história.
A primavera não é necessariamente uma estação de leveza pronta. Ela é uma estação que pede leveza. Essa diferença é enorme.
Durante vasanta rtu, o aumento progressivo do calor começa a mobilizar (ativar, reunir) o kapha acumulado durante a estação fria. Aquilo que estava relativamente condensado torna-se mais fluido.
Nos textos clássicos utilizados como base dos nossos e-books — especialmente a Caraka Saṃhitā e o Aṣṭāṅga Hṛdaya — essa dinâmica fundamenta a atenção que o Ayurveda dá à primavera.
Na linguagem tradicional, essa mobilização pode repercutir sobre agni e sobre os srotas, que são os canais do organismo. Na experiência cotidiana, isso é associado a manifestações que muita gente conhece bem nesta época: congestão, sensação de peso, secreções, alergias sazonais, sonolência, dificuldade de despertar, redução do apetite ou digestão mais lenta.
O curioso é que costumamos culpar a primavera por tudo isso. Mas o Ayurveda vai apontar em outra direçao. Talvez a primavera não esteja criando excesso. Talvez esteja revelando aquilo que o inverno deixou para trás. Já tinham pensado sobre isso?
Do poder de guardar a semente para a liberdade de brotar
Se eu tivesse de resumir a passagem do inverno para a primavera em duas palavras, seria:
guardar → liberar. O inverno nos ensina conservação.
É tempo de proteger calor, preservar energia, nutrir, dormir adequadamente, aprofundar raízes. Nos e-books de inverno utilizamos repetidamente a imagem da natureza trabalhando por baixo da terra: pouco parece acontecer na superfície, mas existe intensa reconstrução acontecendo no invisível.
A primavera realiza o movimento complementar. Aquilo que foi preservado e cultivado precisa voltar a circular. E assim,
O corpo pede mais movimento.
A rotina pede um pouco mais de dinamismo.
A alimentação pode tornar-se progressivamente menos densa.
A mente começa a buscar exteriorização.
O que antes era abrigo pode tornar-se peso se insistirmos nele além do tempo necessário.
E esta frase merece atenção: aquilo que cura em uma estação pode desequilibrar em outra.
Uma alimentação muito nutritiva, untuosa e densa pode ser adequada em determinado momento do inverno. Mantida sem discernimento na primavera, pode favorecer peso e lentidão.
Um recolhimento que no inverno restaura o sistema nervoso pode tornar-se, na primavera, inércia. Até o autocuidado precisa saber despedir-se.
A cozinha também precisa mudar de estação

Talvez seja na alimentação que essa travessia se torne mais concreta.
Nos meses frios trabalhamos bastante com qualidades como calor, maciez, umidade adequada, estabilidade e nutrição: sopas, caldos, raízes, cereais bem cozidos, preparações mais substanciais e um uso inteligente da untuosidade.
Mas, conforme a primavera se aproxima, não devemos simplesmente continuar comendo como se ainda estivéssemos no coração do inverno. A transição pede uma retirada gradual do excesso de densidade.
Entram progressivamente preparações mais leves, alimentos de melhor digestibilidade e sabores que, na lógica ayurvédica, ajudam a contrabalançar kapha — especialmente o picante, o amargo e o adstringente, sempre considerando constituição, clima e condição digestiva individual.
Não significa trocar imediatamente uma sopa quente por uma grande salada gelada. Isso seria outro extremo. A primavera, por si só, é uma estação intermediária, ainda é uma transição.
O próprio e-book Sabores da Primavera com Ayurveda insiste em preparações mornas, leves e digestivas. O objetivo não é esfriar o organismo, mas ajudá-lo a mudar de direção: menos acumular, mais transformar; menos reter, mais circular.
Movimento: o gesto que a primavera pede
Existe também uma mudança comportamental importante, o inverno convida ao recolhimento. Mas a primavera pede pravrtti: manifestação, ação, movimento, florescimento, contudo, que seja gradual.
É quando gradualmente faz sentido aumentar a atividade física, caminhar mais, buscar luz pela manhã, recuperar ritmos mais ativos e abandonar a tendência à permanência excessiva na cama ou no sofá.
Não estou falando de transformar setembro numa operação militar de academia e detox. Isso seria, em verdade, muito pouco ayurvédico.
A orientação é direção, não violência.
No nosso e-book Primavera com Ayurveda, utilizamos uma ideia da qual gosto especialmente: Ayurveda é uma engenharia do ritmo. A rotina precisa estimular e limpar sem agredir o organismo. Porque o excesso também desequilibra.
Principalmente em um país como o Brasil, onde determinadas regiões já entram na primavera com calor intenso, e pitta pode começar a ascender enquanto ainda estamos tentando mobilizar kapha.
É por isso que não existe uma “detox de primavera” universal. Existe observação.
O Brasil precisa de um Ayurveda à brasileira
Esse ponto, para mim, é inegociável. Não faz sentido estudar um sistema cuja essência é adaptação ao ambiente e depois ignorar completamente o ambiente onde vivemos.
No Sul, a primavera pode continuar fria e muito úmida; a transição de kapha pode ser lenta. Já no Sudeste, um dia pode parecer inverno e o seguinte quase verão. Vata e kapha podem alternar seu protagonismo. No Centro-Oeste, calor e secura podem antecipar preocupações relacionadas a pitta e vata. E veremos que em partes do Norte e Nordeste, falar em “fim do inverno frio” simplesmente não descreve a experiência climática real.
Por isso, os quatro e-books procuram trazer os princípios clássicos para nossa territorialidade. Fidelidade ao Ayurveda não significa reproduzir a Índia. Significa aprender a raciocinar como o Ayurveda.
Observar as qualidades.
Observar a pessoa.
Observar o lugar.
Observar o tempo.
Talvez a verdadeira estação esteja dentro de nós
Existe ainda uma dimensão dessa passagem que ultrapassa alimentação e rotina. O inverno é também uma experiência de interioridade. Guardamos. Conservamos. Diminuímos. Mas aí, vem a primavera e nos pergunta o que, de tudo isso, realmente merece atravessar conosco para o próximo ciclo.
Nos nossos materiais sobre primavera aparece uma pergunta que gosto muito de levar também para o consultório e para as aulas: o que pode finalmente voltar a circular? Pode ser uma congestão, um hábito, uma rotina que perdeu sentido. Pode ser uma ideia que permaneceu tempo demais fechada.
O Ayurveda não separa completamente essas dimensões porque não compreende a pessoa como uma coleção de departamentos independentes. Corpo, sentidos, mente, ambiente e tempo formam uma ecologia intrincada. Talvez seja esse o ensinamento mais bonito das estações: saúde não é permanecer igual. Saúde é conservar a capacidade de mudar e se adaptar.
Não precisamos florescer o ano inteiro
Vivemos em uma cultura estranhamente apaixonada pela primavera: queremos produtividade constante, criatividade constante, juventude constante, disposição constante, crescimento constante.
Queremos flores o ano inteiro.
Mas a natureza revela uma verdade diferente. Nenhuma árvore floresce permanentemente.
Há tempo de folhas.
Há tempo de frutos.
Há tempo de perda.
Há tempo de raízes.
O inverno não é um erro a ser superado pela primavera. Ele é aquilo que torna a primavera possível. E a primavera, por sua vez, não significa negar o recolhimento anterior, mas transformar aquilo que foi acumulado em movimento e vida. Talvez por isso o Ayurveda dê tanta atenção ao rtu-sandhi. Porque as grandes transformações não acontecem apenas nas estações definidas.
Acontecem principalmente entre elas, nas passagens, nos intervalos.
Naquela região aparentemente indefinida em que já não somos completamente aquilo que fomos, mas ainda não nos tornamos inteiramente aquilo que seremos. O corpo conhece muito bem esse lugar. A natureza também, logicamente. Talvez devêssemos aprender novamente a habitá-lo.
Desejo que a saída deste inverno não seja apenas a chegada de dias mais quentes. Que seja uma travessia consciente: menos peso, mais circulação; menos rigidez, mais presença; menos automatismo, mais escuta.
E que possamos chegar à primavera não apenas esperando flores. Mas preparados para florescer.
Erick Schulz
Professor de Ayurveda e Diretor do Instituto Naradeva Shala
Sabrina Alves
Profa de Ayurveda, Dra em Ciencia da Religião
Fontes utilizadas
Este texto foi elaborado a partir dos quatro materiais da série sazonal do Instituto Naradeva Shala:
Inverno com Ayurveda, especialmente as discussões sobre ṛtucaryā, acúmulo de kapha e ṛtu-sandhi;
Sabores do Inverno com Ayurveda, sobre agni, alimentação sazonal e adaptação à realidade brasileira;
Primavera com Ayurveda, sobre vasanta ṛtu, mobilização de kapha e rotinas de florescimento; e
Sabores da Primavera com Ayurveda, sobre a mudança das qualidades alimentares na passagem do inverno para a primavera.
Para os e-books que escrevemos utilizamos como referências clássicas centrais a Caraka Saṃhitā, Sūtrasthāna 6, e o Aṣṭāṅga Hṛdaya, Sūtrasthāna 3, além das traduções de R. K. Sharma & Bhagwan Dash e K. R. Srikantha Murthy.

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Erick Schulz

Escritor, terapeuta, professor e consultor de ayurveda. Estudou yoga e ayurveda no Brasil, Índia e Argentina se especializando nessa milenar arte e ciência e sendo reconhecido em todo o Brasil e Exterior. Entre seus certificados de ayurveda, destaca-se para aqueles obtidos no Arya Vaidya Shala, Cochin/Índia e no Arya Vaidya Pharmacy Training Academy, Coimbatore/Índia, este com o qual mantém constante contato e treinamento. Ministra aula de ayurveda em diversos estados do Brasil, no Chile e Argentina. Fazendo parte do corpo docente do Instituto Naradeva Shala e da Escola Latino-Americana de Ayurveda. Aluno direto do Dr. Robert Svoboda, o primeiro Ocidental a se formar como Vaidya (médico ayurvédico) na Índia. É diretor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala e Diretor e Instrutor (Gnana Dhatha Acharya) do Ashram Sarva Mangalam da Suddha Dharma Mandalam na cidade de São Paulo/SP. Diretor e Co-fundador da Escola Latino-Americana de Ayurveda. Editor chefe da Editora Naradeva (Naradeva Prakshana).



Observar a natureza
é primordial para nos conhecermos. Adorei o artigo e recomendo