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Inverno: noite profunda do Hemisfério Sul

por Sabrina Alves

professora de Ayurveda

 

“Desde o outono os dias estão encolhendo como saltinhos de pardal”, dizia minha avó portuguesa que tinha em suas entranhas a experiência de invernos de grande impacto na vivência coletiva. Manter em mente que os dias desde o outono irão encolher gradualmente ajudava a se preparar para o grande momento da noite profunda – que representava escassez, ameaças, atenção às doenças, escuridão por muito mais horas do dia, e busca constante pelo calor.


E sempre é o outono quem nos prepara para adentrar o templo do escuro. A estação intermediária, nos coloca em equilibro de forças – lá em sua entrada temos o dia e a noite de igual tamanho. Mas aí, o pêndulo dos ciclos elípticos já nos anuncia – daqui para diante, os dias encolherão dando lugar para noites cada vez maiores, até que a grande noite nos cubra.


O shastra do Ayurveda nos dirá que nossos corpos se afetam com as alterações das estações. Não somente pela inclinação da luminosidade, mas também pelas inversões de temperatura e umidade e secura. E como sempre, os momentos que o Ayurveda mais recomenda a atenção, são nos momentos intermediários. Até porque não é num dia que a estação simplesmente “entra”. É sempre uma ode ao processo. Dias antes e dias depois de cada entrada de estação diz-se que estamos mais suscetíveis, em todos os aspectos. Cuidado aos cinco sentidos. Lubrifique os orifícios do crânio. Os outros também. Lambuze-se inteiramente em óleos vegetais mornos. Cuidado com a famosa entidade noturna dessa época do ano – o sereno. Não lave a cabeça depois de meio dia, não importa a quantidade de cabelo que você tenha.


Nos dias mais profundos do inverno, quando se expõe menos ao ar livre, a dispersão e desidratação podem interferir na tomada de decisões caso não se esteja devidamente untado. À medida que os dias vão ficando mais curtos e mais frescos desde o outono, uma experiência de aceleração dos pensamentos e ideias poderá ser sentida, ou talvez se sinta triste e letárgico enquanto o mundo a sua volta se prepara para hibernação.

Dias mais curtos podem também interferir no humor e no entusiasmo para se exercitar. Contudo, é nesse momento mais frio extracorpóreo, que nosso corpo irá usar qualquer substância ingerida para gerar caloria. E por isso, torna-se uma ótima época do ano para dar início a algum novo aprendizado, assim como nossa capacidade de retenção e memoria ficam amplificadas, e nossos pensamentos mais bem articulados, porque nossos agnis estão no ápice de suas eficiências. Apreenderão qualquer nesga de informação.


É do profundo da terra também que virão os melhores alimentos para nos mantermos nessas condições frias, secas, escuras. Raízes. Cenouras compridas. Mandiocas largas, macias, amanteigadas. Todas as cores de batata-doce. Japoneses dirão que as melhores são de roxo profundo, por dentro e por fora. Mas evite a bardana, dentre as raízes essa tem em sua composição muito mais adstringência do que você irá precisar nesse inverno. Aboboras mesmo que de uma flor se transforme seu fruto acima da terra, ela oca mantem suas sementes igualmente no escuro. Sua carne é doce e macia. Coma todas. Aqueles que também são naturalmente guardados por capas protetoras --, os cereais, nos servem muito bem, desde que úmidos, mornos e cremosos. Nos orientarmos pela disponibilidade alimentar sazonal nos coloca ojas à disposição. E a vida para se manter, sempre estará em busca de Ojas, que é a memória cósmica da Terra e também responsável pelas funções internas do nosso corpo. Gente é feita pra brilhar, não é? Então, precisamos manter o ojas em dia. Vá brilhar.



 

É devido a pergunta: mas ainda temos as estações acontecendo? De fato, diante de tantos eventos extremos climáticos, as passagens do tempo parecem eclipsadas. Assim como o Āyurveda recomenda para manter a vida brilhando, óleos e comidas mornas e cremosas na extensão do território corporal para manter a caloria dentro com capacidade adequada de transformação, a extensão territorial da Terra à beira de rios, dos cerrados, mata atlântica, caatinha, tundras, pradaria, serras e florestas imensas e profundas também precisam que seu brilho seja assegurado. O motivo habitual para que o inverno seja a estação de secura, frio e escuridão, é porque assim como nosso agni captura tudo e qualquer fragmento de substancia para gerar caloria e capacidade de transformação adequada, o mesmo ocorre no profundo dos solos. Acontece que já não temos mais a proteção das superfícies para evitar que toda essa caloria de contenha. Elas vêm sendo sistematicamente removidas. Degradadas. Pensa assim: o que as grandes corporações estão fazendo aos biomas do mundo inteiro é algo como se todo dia você pegasse uma pedra pomes e esfolasse sua pele todos os dias. O resultado é um corpo seco, esfolado, inflamado, desprotegido, suscetível a qualquer vírus ou bactéria.


As estações elas seguem acontecendo. A inclinação da luminosidade solar em cada hemisfério é quem vai dando essas pistas, porque os movimentos de elipse e cíclicos do planeta em relação a Lua e ao sistema Solar, seguem muito bem, obrigada! A questão é aqui, nessa superfície que habitamos. Como faremos? A urgência é real.


Desejo suculência e untuosidade para cada ser movente deste lado do hemisfério e do outro também. Vamos precisar, se quisermos sobreviver buscando estratégias de proteger esse solo degradado. Ayurveda como manual de sobrevivência para nos ajudar a compreender o todo a nossa volta em interação com o dentro profundo de nós mesmos, é o que compartilhamos. Mas existem sabedorias ancestrais por aí que devem ser igualmente reidratadas.


Ainda em tempo, que o Solstício de Inverno deste Hemisfério Sul, nesta noite profunda da alma do mundo, nos traga a sabedoria pulsante, inerente característica dos herdeiros estelares, para que possamos nos salvar de nós mesmo.


 

Todo o texto é criado no formato de dicas e informações de estudos. Toda e qualquer informação para uso pessoal, é preciso ser avaliado estudado por um/a profissional ayurvédico qualificado.

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Sabrina Alves

Dra. e mestre na área de Ciência da Religião pela PUC/SP com enfoque em gênero, religião e decolonização, com formação em Jornalismo. Sua pesquisa mais recente foi em Gênero, Sexualidade e decolonialidade nos Textos Clássicos do Āyurveda em observância da sua prática atual na diáspora Índia-Brasil.

 

Formada em Āyurveda pela Escola Latino-Americana de Āyurveda e Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, desde 2006; participou de Cursos Avançados e de Especialização na Índia no AVP – The Arya Vaidya Pharmacy; Desenvolve há mais de 15 anos trabalho com sexualidade e pesquisas na área e gênero no Āyurveda.

 

Desde 2008 desenvolveu com a Dra Brenda Kalil (in memoriam) uma abordagem e trabalho específico de Āyurveda para mulheres com atendimentos, workshops e vivências com a proposta de promover a autogestão ginecológica; Realiza um estudo profundo sobre Ahara (alimentação) com base AHARA (nos princípios do Āyurveda) e a alimentação natural com enfoque nas tradições alimentares locais do Brasil, usando como base o Guia Alimentar Brasileiro.

Coordenou em 2010 o Curso Avançado de Āyurveda para Mulheres com a presença do Dr. Robert Svoboda e Dra. Claudia Welch, com os quais mantém constante contato de aprendizado e parceria; coordena os cursos de Pós-gradução em Āyurveda no Instituto Naradeva Shala, o Curso Semipresencial de Formação em Āyurveda, onde também faz parte do corpo docente.

 

Atualmente desenvolve atendimentos com enfoque em um Āyurveda revisitado, feminista, contra-colonial e de Bem Viver para mulheres cisgênero e transgênero, homens transgêneros, pessoas não binárias, agenêres e Queer.

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