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O Verão Pelo Ayurveda: O Problema Filosófico E Biológico

  • Foto do escritor: Erick Schulz
    Erick Schulz
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia


1. Grīṣma Ṛtu: por que o verão não é apenas calor


No imaginário contemporâneo, o verão é vendido como promessa: luz, vitalidade, expansão, prazer. No Ayurveda, porém, ele recebe outro nome — Grīṣma Ṛtu — e a partir dessa denominação, com ele vem um alerta silencioso: não se trata apenas de uma estação quente, mas de um período em que a natureza entra em ādāna kāla, ou seja, passaremos pelo "tempo da retirada". Mas o que isso quer dizer? O sol não apenas aquece: ele extrai, seca, consome. O que cresce em intensidade fora do corpo cobra seu preço por dentro.


Os textos canônicos do Ayurveda são claros ao afirmar que, em Grīṣma, a força vital começa a ser lentamente drenada. A água evapora, os tecidos perdem umidade, a estabilidade cede lugar à fadiga difusa. A untuosidade e suculência do corpo começam a ficar comprometidas. O mesmo corpo, que no inverno acumulou reservas, agora entra em um regime de sobrevivência inteligente. Para o pensamento contido nos textos do Ayurveda, ignorar isso é tratar o organismo como uma máquina independente do ambiente — uma fantasia moderna baseada no individualismo e sem base fisiológica nem filosófica.


Na Caraka Saṃhitā, Grīṣma é descrito como o momento em que bala — a vitalidade global do organismo — começa a declinar. Não porque algo esteja “errado”, mas porque a própria lógica da natureza assim o determina. O erro não está em ficar exausto no verão. O erro está em exigir do corpo o mesmo desempenho, a mesma intensidade e os mesmos excessos de outras estações.


O cansaço do verão, portanto, não é fraqueza. É um sinal de adaptação mal conduzida. Quando o ritmo não se ajusta, quando a alimentação não se transforma, quando a rotina ignora a estação, o corpo protesta — não com alarme imediato, mas com um desgaste silencioso que muitos só percebem meses depois.


2. Quando o fogo externo cresce e o agni vacila


Existe uma confusão persistente no discurso moderno sobre saúde: calor é automaticamente associado a força digestiva. No Ayurveda, essa associação é um erro conceitual. O aumento do fogo externo não fortalece o agni — o fogo digestivo e metabólico —, ao contrário: o excesso de calor fora do corpo deixa o agni, instável.


Agni forte é aquele que digere com regularidade, clareza e discriminação. Agni instável é errático: ora intenso, ora apagado, ora agressivo, ora lento. No verão, o excesso de calor ambiental força o corpo a direcionar energia para a termorregulação. O resultado é um agni que perde foco, precisão e constância. Come-se menos, mas digere-se pior. Come-se leve, mas sente-se peso. Come-se “saudável”, mas surgem gases, azia, fadiga e irritabilidade.


O erro moderno diante disso é tentar resolver calor com frio excessivo. Água gelada, sucos frios, saladas cruas em abundância, gelo como hábito. Essas práticas não resfriam o fogo certo — elas o apagam onde ele ainda é necessário, o agni. O que se cria é um colapso digestivo invisível, especialmente nas cidades, onde ar-condicionado, pressa e refeições desritmadas intensificam o problema.


O verão urbano não adoece pelo calor em si, mas pela contradição constante entre ambiente externo quente e estratégias internas que enfraquecem o centro digestivo. O resultado é um corpo confuso, tentando equilibrar extremos opostos ao mesmo tempo.


3. Verão não é estação de detox, segundo o Ayurveda


praia

Talvez nenhum mito moderno seja tão incompatível com o Ayurveda quanto a ideia de que o verão é a estação ideal para detox. Sucos, jejuns prolongados, limpezas agressivas e restrições severas são frequentemente apresentados como soluções naturais para o calor. Na lógica ayurvédica, são exatamente o contrário.


"Detox" pressupõe capacidade de eliminação. Eliminação exige bala. E bala, no verão, está em declínio. Forçar processos de limpeza profunda quando a vitalidade está sendo naturalmente consumida é como exigir que um corpo em contenção energética realize tarefas de alto custo metabólico. O resultado não é purificação — é exaustão, comprometimento profundo de recursos de sobrevivência do corpo e da mente.


Os textos clássicos não associam Grīṣma a práticas intensas de purificação. Pelo contrário: indicam suavidade, conservação, adaptação inteligente. O foco não está em “retirar toxinas”, mas em não produzir novas. Em vez de limpar agressivamente, o Ayurveda propõe proteger o agni, preservar a umidade dos tecidos, reduzir estímulos excessivos e manter a energia vital disponível para o essencial.


No lugar do detox, entra o cuidado de cuidado extremamente fino: refeições simples e mornas, hidratação consciente, descanso estratégico, redução de excessos — não como moralismo, mas como fisiologia aplicada. O verão não pede purgação. Pede inteligência.


  1. Encerramento: o verão como chave de leitura do corpo


Compreender Grīṣma Ṛtu é mais do que aprender sobre uma estação. É aprender a ler o corpo como parte da paisagem, não como exceção a ela. Quando o verão é tratado apenas como calor, perde-se sua dimensão mais profunda: ele é um teste de escuta, de limite e de maturidade fisiológica.


Este texto é o alicerce de toda a série que se seguirá. A partir daqui, falaremos de rotina, alimentação, sono, mente e escolhas diárias. Mas tudo começa aqui: reconhecendo que o verão não exige força — exige sabedoria.


Abraços Ayurvédicos

Prof Erick Schulz e Profa Sabrina Alves

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Desejamos que ele o acompanhe como uma brisa, uma água fresca, um lembrete de que o cuidado é uma prática diária, não uma ocorrência extraordinária.


Com carinho, rigor e tradição viva, os autores

Prof. Erick Schulz & Profa. Sabrina Alves

Instituto Naradeva Shala

Erick Schulz


Escritor, terapeuta, professor e consultor de ayurveda. Estudou yoga e ayurveda no Brasil, Índia e Argentina se especializando nessa milenar arte e ciência e sendo reconhecido em todo o Brasil e Exterior. Entre seus certificados de ayurveda, destaca-se para aqueles obtidos no Arya Vaidya Shala, Cochin/Índia e no Arya Vaidya Pharmacy Training Academy, Coimbatore/Índia, este com o qual mantém constante contato e treinamento. Ministra aula de ayurveda em diversos estados do Brasil, no Chile e Argentina. Fazendo parte do corpo docente do Instituto Naradeva Shala e da Escola Latino-Americana de Ayurveda. Aluno direto do Dr. Robert Svoboda, o primeiro Ocidental a se formar como Vaidya (médico ayurvédico) na Índia. É diretor do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala e Diretor e Instrutor (Gnana Dhatha Acharya) do Ashram Sarva Mangalam da Suddha Dharma Mandalam na cidade de São Paulo/SP. Diretor e Co-fundador da Escola Latino-Americana de Ayurveda. Editor chefe da Editora Naradeva (Naradeva Prakshana).

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